"Não
tenho nenhuma compaixão por Romeu e Julieta. Eles não experimentaram nenhuma
crise de relacionamento antes do fim. Nenhuma discussão no trânsito. Uma
briguinha para quem iria se levantar para chavear a porta. Não reclamaram dos
excessos, da bagunça do quarto ou por voltar tarde e não ser delicado entre
amigos. Não provaram do veneno dos costumes, do terror de se entregar demais e
perder a cabeça, ou do pudor de se entregar de menos e se afastar. Conheceram o
ímpeto do amor, não o amor. Não descobriram a medida, o equilíbrio exato de dois
corpos, que demora anos de convivência para aparecer. Para mim, Romeu e Julieta
continua sendo apenas um bom charuto. Mas estrago meu rímel natural com casais
que morrem juntos na velhice. Esfolo os joelhos do rosto. Sangro os lábios.
Depois de meio século de vida em comum, um não sobrevive à morte de sua
companhia. Desistem. Perdem o sentido de respirar com o enterro da esposa ou do
marido. Ficam emparedados pelo passado. A cozinha não terá saída; o quarto não
terá lado; a sala não terá janela; a manhã não terá a companhia do café e da
leiteira fervendo. A casa que mais adorava em minha rua José Bonifácio terminou
destruída. Residência antiga de dois andares, verde como um pinheiro no alto da
montanha, desfrutando inclusive de água-furtada. É agora um poço de ruínas,
paredes fatiadas, escombros e uma estranha mesinha para aves descansarem da
fartura dos farelos. Não duvido que seja transformada em mais um estacionamento.
Meu filho passa pelo terreno minado com o olhar arrastado, antes recebia balas e
brincadeiras de seus moradores Sady e Heidi, que cuidavam com capricho do
jardim, dispondo anões e bichos de pedra pelas roseiras. Os dois viveram
sessenta anos de casamento. Quando Heidi faleceu neste ano, Sady não durou cinco
dias. Seu espírito altivo, lépido e incansável, de quem se acordava às 6h e
saracoteava pela cidade, apagou-se repentinamente. A carne cedeu, o rosto
murchou, ele adoeceu de ausência. Ambos cumpriram um pacto de vida mais do que
de morte. Não admitiram a distância dos sete dias da missa - era muito longe.
Não admitiram o aparte de uma semana - era muito tempo. Embarcaram no invisível
de ombros dados. Heidi nem entrou no paraíso, esperou na porta seu marido, como
se fosse um segundo altar. O mesmo posso falar de Stella e Dorival Caymmi. Stela
deixou a cena 11 dias após a despedida de Dorival. Foram casados durante 68
anos. Dorival morreu porque Stella baixou o hospital em estado grave. Stella
morreu quando soube (pela intuição que só os pares de dança têm) que Dorival
guardou sua voz no estojo. Um dependia do outro. Não aceitaram a viuvez. A
viuvez era também uma infidelidade. Uma traição ao casamento. Mostraram a Deus
que não é ele que manda aqui, ajuda ou atrapalha, não manda. O livre-arbítrio é
da lealdade. Escolher a hora de pôr a aliança, e escolher a hora de se pôr na
aliança."
(Fabrício Carpinejar)
quarta-feira, julho 17, 2013
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Um comentário:
Belo texto, com o qual concordo.
E considero uma história de amor a de Abelardo e Heloísa.
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